Oscar Niemeyer
Arquiteto
As cidades evoluíram sempre em função do progresso, da técnica, dos novos meios de comunicação, da displicência dos homens, inclusive. Nas cidades antigas tudo era fácil e a vida mais natural e solidária. A pequena praça onde todos se reuniam, as ruas estreitas, o comércio a ladeá-las, dando-lhes vida e movimento, os bairros residenciais arborizados e tranqüilos, supridos pelo comércio local nas exigências do cotidiano.
Com a evolução dos novos meios de produção e transporte, das novas funções urbanas que surgiram e da revolução industrial, principalmente, as cidades se transformaram em grandes metrópoles, dinâmicas, cheias de vida, mas despidas da antiga e indispensável intimidade. As cidades existem há anos. Talvez em Nínive, na Babilônia… Mas certamente em Roma e Alexandria seus habitantes já encontravam certos problemas que hoje nos envolvem. A metrópole constituía então um caso tão extraordinário que podemos afirmar ser o século 20 sua era verdadeira. David Hume, em On the populousness of ancient nations, assegurava que, depois das experiências feitas nenhuma cidade teria no futuro mais de 700 mil habitantes.
Willian Pelter dizia que Londres chegaria no máximo a 5 milhões e, Julio Verne, mais realista, imaginava cidades com 10 milhões. O crescimento demográfico das cidades, entretanto, superou todas essas estimativas. Londres, por exemplo, tinha em 1801, 864.845 habitantes e, em 1981, 4.232.118. A era maquinista começava.
As casas de cinco pessoas formam substituídas por apartamentos com 200 moradores. As ruas se encheram de carros e de gente, a densidade urbana cresceu sem controle e os problemas de tráfego, de ruído, de segurança, inclusive, passaram a pesar sobre seus habitantes.
Veio então a cirurgia urbana, os viadutos, trevos e passagens de nível com suas cicatrizes inevitáveis e o homem se viu esmagado por sua própria imprevidência, esquecido e frustrado no meio das multidões desconhecidas.
Os espaços urbanos das velhas cidades se tornaram exíguos, agravando a tarefa demolidora do poder imobiliário a construir enormes edifícios, uns grudados aos outros, invadindo praias e morros, sem respeito pelo homem e pela própria natureza.
E as velhas cidades perderam sua antiga unidade, invadidas pela arquitetura racionalista a descer sobre as calçadas com seus inefáveis e repetidos cubos de vidro. Essa é a explicação corrente, clássica, dos que a estudam quase sempre esquecidos da discriminação social odiosa que representam. Apenas na União Soviética e demais países socialistas, onde a revolução aboliu a propriedade da terra, novas possibilidades são oferecidas.
Nas outras cidades do mundo, do ocidente, para sermos mais precisos, ainda encontramos o mesmo desacerto. Os ricos usufruindo-as alegremente, e os mais pobres espalhados pela periferia nos seus míseros barracos. Da cidade industrial de Tony Garnier (1907) à Carta de Atenas (1933) muita coisa foi sugerida, mas todas elas – esta última inclusive – começam a ser, veementemente contestadas.
Apelam para soluções mais compactas, mais humanas, onde as ruas de pedestres voltem a existir, com seus setores devidamente integrados, sem criar, fora das horas de trabalho grandes zonas desertas e abandonadas. Atentos, os especialistas do urbanismo se debruçam apaixonadamente sobre os problemas das grandes cidades. E surgem críticas, falam da poluição, do poder imobiliário, da densidade brutal, do problema casa-trabalho, etc, mas quando se trata das favelas, das crianças a perambular pelas ruas, do operário a sair de casa cedo, de madrugada, para voltar somente à noite sem ver os filhos, aí o tom se dilui acomodado, como se se tratasse de coisa natural e compreensível. Dentro desse quadro social inqualificável, não seria possível construir a cidade do ano 2000. Em vez de representar o futuro, ela se limitaria a exprimir – de forma belíssima, quem sabe? – as discriminações e a injustiça do mundo capitalista.
Que fazer? Como poderíamos nós, da América Latina, ainda oprimidos pelos velhos privilégios que a burguesia criou, falar desta cidade que requer, antes de tudo, um mundo sem classe, justo e solidário? Como poderíamos pensar nessa cidade ideal se o imperialismo nos oprime promovendo ditaduras e subserviência, e os privilégios, a propriedade da terra e o autoritarismo pouco nos permitem realizar?
Como levantar as características dessa cidade do futuro se a miséria cresce à nossa volta e a injustiça nos tira da prancheta para, conscientes e solidários, intervirmos na política com o nosso protesto e a nossa revolta? Mas é preciso sonhar um pouco e modestamente lhes dizer como imaginamos a cidade do futuro.
Começaríamos lembrando que, a nosso ver, essa cidade não deveria ser voltada pra o passado, para as velhas cidades medievais que ainda hoje tanto nos atraem, mas delas guardar aquela calma, aquela escala humana que o progresso e a incompreensão dos homens não souberam preservar.
Não será, portanto, uma cidade feita para a máquina, mas ao contrário, feita exclusivamente para o homem, que a poderá percorrer a pé de lado a lado como naqueles velhos tempos o fazia. Para isso será uma cidade vertical, reduzindo distâncias, cumprindo assim sua principal característica. Terá densidade prefixada, evitando esse crescimento descontrolado, que desfigurou as grandes cidades do mundo. Para manter a liberdade de circulação dos pedestres, todos os veículos ficarão na periferia, com os estacionamentos acessíveis aos diversos setores da cidade, ao centro inclusive, onde serão situados os departamentos administrativos, o comércio, os escritórios, etc.
Daí até a periferia, se sucedendo dentro da lógica urbanística, serão localizados os setores de saúde, cultura, ensino e, finalmente, as habitações. Será uma cidade multiplicável, isto é, cidades que se sucederão de forma linear, criando entre elas enormes espaços verdes destinados ao lazer. Dando seqüência, paralelamente, as áreas agrícolas, de pesquisa e das grandes indústrias. Esta é a opção que nos ocorre. Outras, muitas outras, surgirão com certeza, mas para nós é nessa cidade menor, mais íntima, mais humana que o homem encontrará um dia a solidariedade perdida e a vida mais amena e feliz que sempre desejou.
Rio de Janeiro, Domingo, 16 de Dezembro de 2007 – 09:10 hs
REVISTA ECO-21 EDIÇÃO 133
Disponível em: http://www.eco21.com.br/textos/textos.asp?ID=1663